Vale a pena ler, garanto que muitos de nos, sentimos a mesma coisa.

Mister Dynamite

Senhoras e senhores, com vocês, o homem que trabalha mais duro no mundo do show business. O Padrinho do Soul. O Mister Dynamite”. Assim era anunciada a chegada ao palco de James Brown ao longo dos seus mais de 40 anos de carreira. E assim ele foi introduzido ao público naquela noite, no final do verão de 2006, em San Diego, Califórnia, para o meu delírio e das pouco mais de mil almas presentes ao galpão velho e tosco da 4th and B – tradicional casa de shows da cidade.

Algumas semanas antes, ainda no Rio, escrevi um e-mail para minha mãe, que morava em San Diego havia alguns anos, afim de planejar os detalhes da minha visita. Entre outras coisas, perguntei a ela se no período em que eu estivesse por lá haveria algum show que valesse a pena. Não criei muita expectativa porque, afinal de contas, a viagem não duraria mais de duas semanas. Mas, para minha surpresa, o e-mail de resposta dizia o seguinte: “Li que vai ter um show do James Brown aqui. Interessa?”. Era o mesmo que perguntar se o macaco queria banana.

Jamais me perdoei por nunca ter ido a um show do Tim Maia – o maior cantor brasileiro de todos os tempos. Mas se eu não havia visto o pai do funk brasileiro ao vivo, teria agora o alento de estar presente a um dos últimos shows do pai do funk original. Sly & The Family Stone, George Clinton, WAR, The Isley Brothers e The Meters são todos geniais, mas James Brown é como os Beatles – uma entidade. Ele é o número zero em qualquer lista dos dez ou cinquenta maiores nomes do gênero. Está acima de qualquer comparação.

Na porta da casa de shows, uma meia-dúzia de três ou quatro fanáticos religiosos perambulava no meio da galera segurando a Bíblia e rogando ao público que não adentrasse naquele ritual profano. Segundo estes patetas semi-albinos, o funk/soul era música do Satanás… Caguei pra eles e entrei na fila feliz da vida. Minha mãe decidiu na última hora que me faria companhia e estava ao meu lado na fila quando um segurança pediu a ela que abrisse a bolsa. Após a revista completa, típica da paranóia moderna norte-americana, entramos e fomos procurar o nosso lugar no salão.

O público era composto em sua maioria por negros de meia-idade. As mulheres exibiam roupas e adornos coloridos e papeavam animadas enquanto os homens formavam uma fila gigante em busca de cervejas e margueritas. Havia um agradável clima de nostalgia dos anos 70 no ar. A única coisa que me incomodava era o nosso lugar na platéia. Estava impresso no bilhete que deveríamos assistir ao show na parte lateral do galpão, do lado direito do palco, onde havia uma grande fileira improvisada de cadeiras de metal. Gelei com a idéia de ter que permanecer sentado ali sabendo que seria impossível ficar parado em um show do Soul Brother Número Um.

Mas bastaram a introdução ao microfone e os primeiros graves do baixo para que eu me levantasse e partisse para o meio da pista. Minha mãe não se importou em ficar sozinha e ainda me emprestou uma máquina digital vagabunda para que eu registrasse as imagens do baile. Tomei uma linha reta em direção à beira do palco e usei os cotovelos para abrir caminho no meio da massa. Finalmente fiquei frente-a-frente com a James Brown Band: três guitarristas, dois baixistas, dois bateristas, três na linha de metais, um percussionista, um tecladista, duas cantoras nos backing vocals e mais duas dançarinas boazudas, com os respectivos umbigos desnudos.

Quando o homem pisou no palco, cerca de quinze minutos depois da banda, senti um calafrio. Mr. Brown chegou envolto numa manta dourada, um canhão de luz iluminava seu rosto escalafobético de 73 anos de idade. Caminhou lentamente pelo tablado até se posicionar defronte ao microfone central. E então a ninfeta que o acompanhava soltou sua mão e retirou a manta de seus ombros. A cobra ia fumar.

Urrando como urra um porco ao ser assassinado no abatedouro, ele abriu a noite com “I Got You (I Feel Good)”. Logo percebi que o velho ainda esbanjava energia e sentia-se realmente bem. Os movimentos de dança já não eram os mesmos de outrora, mas o malabarismo com os pés e a clássica ajoelhada no meio do palco estavam garantidos. Lembrei de um amigo meu do Rio que, ao saber que eu assistiria a um show de James Brown, fez o seguinte comentário: “O cara é uma múmia… é capaz dele usar andador pra se locomover no palco”. Não tinha múmia nem andador. O cara não estava no auge da forma física, mas compensava tudo no entusiasmo e no gogó.

Em seguida foram enfileirados clássicos do groove como “Papa’s Got a Brand New Bag”, “Make it Funky” e “Cold Sweat”. No meio desta última, percebi que JB olhou para um dos baixistas e espalmou a mão direita por duas vezes. Aquele gesto sutil significava que o instrumentista havia escorregado no andamento em algum trecho da música e o erro lhe custaria duzentos dólares de “multa” ao final do show. Notei a tensão no rosto do baixista, que engoliu em seco mas continuou tocando.

Àquela altura eu já estava na terceira cerveja e com a camiseta encharcada de suor. É fato que nunca requebrei tanto em um show com meus ridículos passos de dança. E olha que vivo no Brasil, onde o samba, o forró e o frevo sacodem a carcaça da nação o ano inteiro. Mas ali constatei que nenhuma música no mundo é tão rica quanto a música negra norte-americana. Não bastassem o Blues, o Jazz, o Gospel, o Rap e a Disco, ali estava a nata do Funk e do Soul provando que os afro-americanos são os grandes mestres na arte de atingir a alma e os quadris humanos através da música.

Entre os personagens da banda de Brown, os que mais despertaram minha atenção foram os guitarristas. Com levadas simples e certeiras, eles exploravam os agudos com personalidade, ditando o ritmo do balanço. Qualquer sujeito com ouvido razoavelmente apurado dirá que o baixo é o carro-chefe do funk. E os graves sem dúvida são fundamentais, mas de vez em quando as guitarras roubam a cena, como meliantes elétricas. Os discos do Mister Dynamite são prova disso. Ouça, por exemplo, “In The Jungle Groove” (1986), uma coleção de pedradas do mestre que conta com a colaboração dos irmãos Bootsy e Catfish Collins, no baixo e na guitarra, respectivamente.

“Please, Please, Please” abriu o momento-mela-cueca do show e eu fui pegar outra cerveja. Na volta, passei por um jovem que se atracava aos beijos com duas colegiais louras ao mesmo tempo. O clima ali estava quente. E esquentou ainda mais quando a banda puxou “Sex Machine” e JB mandou a platéia rebolar seus “fazedores de dinheiro”. “Shake your money maker!”, ordenava o insano mestre de cerimônias enquanto se retirava do palco.

Chegou a hora do bis, e eu já começava a lamentar a ausência no set list de duas das minhas faixas favoritas – “The Payback” e “Say It Loud (I´m Black and I´m Proud)” – quando a banda lançou as primeiras notas de uma balada que eu até então havia escutado uma ou duas vezes sem prestar muita atenção: “It´s a Man’s Man’s Man’s World”. Aquela era a saideira e durou mais de dez minutos. Lembro de ficar chapado com o riff trastejante da guitarra, que criava o clima dramático da canção.

A letra dizia que o mundo é dos homens, mas que ele não valeria nada se nele não houvesse uma mulher ou uma garota. Emocionado e cantando muito, Brown emendou um discurso improvisado em que lamentava: “O homem fez a luz elétrica para nos tirar do escuro, mas também joga aviões sobre edifícios e fez a guerra no Iraque”. A casa veio abaixo e pela primeira vez na vida chorei em um show. As lágrimas não eram para Osama, e muito menos para George Bush, mas para aquele bandleader cabeçudo criado nos guetos da Georgia que eu nunca mais veria em ação novamente.

James Brown me fez querer ter nascido negro. Ele me fez lembrar de Pelé, Adílio, Michael Jordan, Mike Tyson, Muhammad Ali, Fela Kuti, Bob Marley, Jorge Ben, Mussum e tantos outros gênios negros que são referências em minha vida. Mas o tom de despedida daquele último número foi demais pra mim, sem frescura. Chorei mesmo, de satisfação, e choraria de novo.

Na saída, reencontrei minha mãe, mas não consegui emitir sequer um comentário. Eu estava mudo e assim permaneci pelos quinze minutos seguintes. Entrei no carro ainda atordoado e fiquei contando as luzes do Freeway no caminho de casa. Eu nem sabia, mas aquele show, carregado de sentimento, energia e estilo foi um dos últimos da vida de James Brown. Ele morreria três meses depois, vítima de uma pneumonia.

Zé McGill

Fonte http://revistafoda-se.blogspot.com