As damas da melodia
por Ana Paula Sousa

Vozeirão que já na fala se impõe, alta, olhar firme, Dona Ivone Lara chega a causar timidez em quem dela se aproxima. Que o diga a cantora Teresa Cristina. Sorriso largo e ar de menina que o tempo perdoa, ela não disfarça a tietagem:

– Toda vez que eu encontro a Dona Ivone eu fico muito mexida. Imagina a quantidade de gente que não encontra a Dona Ivone e fica assim.

Dona Ivone, sem notar, desfila majestade. Leci Brandão, camiseta da Mangueira a demarcar a origem, jeito de quem guerreia, fica no meio das duas. E fala pelas três.

– Qualquer compositora de MPB, numa reportagem, sai como compositora. Já a gente é sambista.

Três gerações. Três melodias. Três rimas. Ivone, 85 anos, Leci, 62, e Teresa, 38, se reuniram há duas semanas no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, num show chamado Santíssima Trindade, destinado a mostrar as canções das três principais compositoras de samba do Brasil.

No teatro lotado, levaram o público ao delírio. Entoaram os sambas da própria lavra e, ao final, cantaram em capela que Um sorriso negro, um abraço negro/ Traz felicidade. Juntas, mostraram a força dos talentos lapidados pela vida.

Dona Ivone foi enfermeira. Leci, telefonista. Teresa, manicure. Nascidas pobres, mulheres e negras, um dia se deram conta de que a música não as largaria. Ser artista era coisa de outras gentes, pensavam. Mas acabou acontecendo com elas.

Difícil saber o que mais impressiona ao vê-las reunidas: se a vida, o samba ou o apanhado de gerações. No camarim, antes do show, recebem CartaCapital para uma conversa. Desfiam histórias sem fim, fazem perguntas umas às outras e, fala cortada por fala, descortinam o samba, a vida, o Brasil.

Dona Ivone, compositora de primeira grandeza, começa com as histórias que chegam borradas aos livros:

– Meus avós foram escravos. Meu avô foi capataz e minha avó era mucama. Tinha um general que chamava minha avó de mãe. Meu avô era um capataz que não era mau para os irmãos de senzala, pelo contrário. Quando os irmãos faziam qualquer arte, se ele pudesse esconder, ele escondia. Se o patrão queria castigar, ele dava fuga. Meu avô cuidava deles. Quando eu falo na música de curar os ferimentos com o banho de abô, eu tô falando do meu avô.

Teresa lembra da música todinha:

– É… O Axé pra Ianga. Dona Ivone, a senhora não teve vontade de colocar essas histórias num livro, não?

– Eu? De jeito nenhum. Tenho horror a isso. Graças a Deus, vim de ventre livre. Senão, eu ia ser danada.

Teresa, revelação do samba no fim dos anos 90, musa do bairro da Lapa, no Rio, lacrimeja ao falar de Dona Ivone:

– Toda vez que encontro com ela, eu fico muito embasbacada. Acho que, se a gente morasse em outro país, teria escolas de música com o nome da Dona Ivone. Eu não acho que ela não é reconhecida, não, mas deveria ser nome de rua, de colégio…

– Mas quando eu morrer…

Gargalham todas com a provocação. Dona Ivone, nascida em 1922, no bairro de Botafogo, no Rio, é, de fato, compositora já lendária do samba. Parceira de Silas de Oliveira, Hermínio Bello de Carvalho, autora de músicas que todos sabem cantarolar, como Sonho Meu e Alguém Me Avisou, foi a primeira mulher a emplacar um samba-enredo no carnaval carioca, em 1965. Isso sem falar na voz rara.

Graças ao tio, entrou na Ala dos Compositores da Império Serrano. Num meio machista, faz questão de dizer que só vingou ali porque tinha as costas quentes:

– Eu digo que entrei para a Ala dos Compositores porque quem montou a ala foi meu tio. Ele falou: “Ivone vai ser parceira de Silas e não se fala mais nisso”. Aí todo mundo acatou.

História bem diferente teve Leci. Sua porta para o samba foi a Mangueira. Sua madrinha de batismo morava no Morro da Mangueira e era amiga de Dona Zica. O avô desfilou na escola. A mãe trabalhou com Jamelão. Ainda assim, para virar compositora, penou:

– Quando cheguei na reunião da Ala dos Compositores, com Hélio Turco, Nelson Sargento, me perguntaram: “O que você tá fazendo aqui?” Disseram que eu ia ficar um ano fazendo samba de terreiro e, se passasse no teste, aí me aceitavam oficialmente. Minha carteira é de 1972. Em 1974, eu já estava na final do samba-enredo… Mas nunca ganhei. Fui vice-campeã seis vezes!

Teresa Cristina, três décadas depois, não tinha tio que a protegesse, mas tinha música gravada em CD que homenageava a Portela:

– Eu ouço a Leci e não acredito que ela teve de ficar um ano fazendo samba de terreiro. Na Portela, me convidaram. Mas a história dela, na Mangueira, me encoraja a nunca querer fazer samba na Portela. Primeiro, porque o samba-enredo de hoje… Como eu vou compor um samba corrido desse jeito? Tem de agradar a bateria, tem de agradar não sei quem.
Está jogada a lenha na fogueira. Leci, comentarista dos carnavais da Globo, pega o fio puxado por Cristina e prossegue:

– Agora existe o empresário do samba. Para poder concorrer, você tem de ter estrutura financeira, distribuir CD na comunidade, dar comida não sei para quem.
Dona Ivone também não quer mais saber do carnaval que, tornado negócio como quase tudo, perdeu a espontaneidade que o fez único e grande:

– Você vê samba-enredo às vezes com dez compositores. E isso lá é samba?

Leci atribui os novos rumos à transformação das escolas em palco de aparecidos mil:

– Antes era negócio de quilombo, de cantoria, de morro e favelado, né? Mas, hoje, todo mundo quer sair na Mangueira. Quando entrei na escola, a gente distribuía adereço na avenida, fazia foguinho pra esquentar tamborim e areava panela de feijoada. Mas, depois de se globalizar, o desfile passou a ser um lugar interessante para as pessoas aparecerem. É o tal in e out. Agora é in sair em escola. Então, tem rainha de bateria que é modelo, atriz. As meninas da comunidade ficam fazendo a corte.

Se os novos contornos das escolas incomodam as artistas, mais ainda as incomoda a idéia de que, nestes anos 2000, o samba virou “moda”. Teresa rebate:

– Comecei a cantar samba em 1998 e já tinha esse mesmo papo da moda. Eu nunca vi uma moda durar dez anos! Ele já tava na moda antes. E sempre estará.

Apesar disso, por mistérios da etimologia – e, quem sabe, do preconceito de classe –, samba não é considerado MPB. Por causa disso, Teresa sofre um bocado para abrir brechas nas rádios, por exemplo:

– Na visão de muita gente, MPB é sofisticado e samba não é. Aí tem rádio com perfil de MPB que diz que não pode ter samba para não ficar popular demais. Daí, vou para a rádio de samba, e ouço: “Você é sofisticada demais, aqui é mais pagode, tem de ter mais barulho. Aí dizem que fulana de tal cantava samba no início da carreira, se sofisticou e começou a cantar MPB. Então ela era esculhambada porque cantava samba? E isso tem gente que fala sem nem sequer perceber…

Carmo Lima, produtor do show Santíssima Trindade, observa, porém, que a presença do samba em teatros como o Sesc Vila Mariana indica que o preconceito escasseou. Mas por que ainda são tão raras as mulheres nesse universo? “O samba começou na casa de uma mulher, a Tia Ciata, nos anos 20, onde se reuniam Donga, Pixinguinha, João da Baiana e Heitor dos Prazeres. Mas a mulher, mesmo que soubesse cantar, não podia entrar na roda. Então, é até natural que poucas se aventurem a compor”, avalia.

Compuseram aquelas que não tinham escolha. Não tinham escolha porque, simplesmente, a música sempre transbordou dessas mulheres. Dona Ivone relembra:

– Eu fui criada num colégio interno, onde éramos 300 alunas. Eu tinha um conceito muito bom lá porque sempre gostei de cantar. Eu pertenci ao orfeão artístico, compreendeu? E sinto uma facilidade danada com melodia. Vai saindo assim … Mas, quando a gente compõe, o que a gente está fazendo, no fundo, é contar a história da nossa vida.

De belas vidas.

Fonte: CartaCapital
Foto: Igor Bier Pessoa