O cantor Monarco na feijoada da Portela. Paqueradores com cartão de visita e esticada ao “Buraco do Galo”

Revista BRAVO! | Setembro/2008

A Cidade da Delicadeza

Um mergulho no mundo da Portela, escola que inspirou filmes como ”O Mistério do Samba”, em cartaz neste mês, e muitos outros músicos, cineastas e escritores – como o autor deste texto

Por Paulo Roberto Pires

”O mundo passa por mim todos os dias / Enquanto eu passo pelo mundo uma vez.” Assim filosofa Alvaiade no samba de 1968 que repito como um mantra toda vez que me dou conta do privilégio de, em minha passagem por este mundo, já ter passado tantas vezes pelo número 81 da rua Clara Nunes, em Madureira, Rio de Janeiro. Naquela quadra, que sedia a Portela há 36 de seus 85 anos, vivi seguramente as maiores emoções que a música pode despertar, pois o mundo portelense é maior do que o samba, é maior do que a vida é do tamanho do mundo.

Não nasci portelense, tornei-me portelense, por opção e paixão e há relativamente pouco tempo, abandonando a escola na qual me batizaram e que, por motivos vários, não valia mais a pena. Não tenho, portanto, o “atestado de raiz” que os talibambas, fundamentalistas da autenticidade popular, costumam exigir de quem se aproxima do samba que eles querem “puro”. O momento máximo de minha conversão azul-e-branca aconteceu, aliás, na feijoada que ocupa a quadra nos primeiros sábados de cada mês e para a qual os puristas torcem o nariz: é gente demais, mistura demais talvez alegria demais para a turma do Ibama da cultura, que trata a velha guarda como uma espécie exótica e em extinção a cada viagem antropológica que fazem além da península Ipanema-Leblon, munidos de mapas, bússolas e, é claro, câmeras de vídeo de alta definição.

Mas não há nada, rigorosamente nada, a ser preservado ou protegido na velha guarda e na Portela. Há, isto sim,vitalidade e energia de sobra na estridência da Surica, na beleza da Doca, no jeito de moleque levado de Casquinha, na altivez de Guaracy, na linda voz de Sergio Procópio, na elegância de Monarco, no entusiasmo e na intensidade de Marquinhos de Oswaldo Cruz que ainda não é velha guarda por mero capricho cronológico. Foi esse grupo formado principalmente porfundadores da Portela que, reunido num carro alegórico no desastroso Carnaval de 2005, foi barrado na Marquês de Sapucaí pela própria diretoria sob pretexto de manter acronometragem do desfile. Às lágrimas, eles não despertavam piedade nem se mostravam frágeis: ao contrário, eram pessoas indignadas e ofendidas, íntegras e ostensivamente alheias, com sua história,às malversações na condução da escola.

Na quadra da Portela, também nada lembra museu ou parque temático. Num grande quintal, os dois pavilhões abertos sugerem mais um clube do que uma tradicional sede de escola. No galpão, o palco, mesinhas para o público e uma vasta pista para dançar; no prédio menor, os dois pontos em que se serve a feijoada, deliciosa, tudo junto (com rabo e pé se o freguês quiser) num legítimo PF. O que se tem ali é vida, pulsante, impura e acidentada como costuma ser a vida. “Se tu fores na Portela tudo encontrarás/Alegria, tudo de bom, o amor”, diz um dos “hinos” (de Ventura) que mais me emocionam depois que atravesso as barulhentas roletas de ferro, como as das tradicionais estações de trem suburbano,que separam a Portela da vida tal como a conhecemos.


Um sábado em que, por breves momentos, demos falta de um jovem escritor português, que, já no caminho para a escola, aprendia a diferença entre o “Rio” (turístico) e o “de Janeiro” e se mostrava empolgadíssimo em descobrir uma nova cidade. Fascinado pelo sambae pelas moças, a bem da verdade mais por estas do que por aquele, o Zé, como fica ele aqui identificado, sumiu um bom tempo. E reapareceu com uma camisa, nova, tinindo, com a águia no peito. Sentou-se numa mesa na calçada do Portelão e, como se estivesse tomando um delicado sorvete de baunilha, bateu um caldinho de mocotó com feijão branco.

Pois a Portela não é só a escola, a velha guarda e o feijão. É também o que se arma em torno da quadra em dia de ensaio todas as sextas-feiras e nos ritualísticos primeiros sábados do mês. Nessas festas, lá pelas oito da noite, quando o samba dentro da quadra está baixando e comida acabou, começam os pagodes do lado de fora, na rua estreita em que se sucedem biroscas sem nome, o portentoso Cabana (um quintal cercado de grades ferro que vira casa noturna), o Palácio do Pagode e, gloriosamente, o Motel Carícia, promessa de felicidade a preços eternamente promocionais.

O samba em um desses bares é especialmente bom e acontece em torno de duas mesas de lata enferrujada, daquelas patrocinadas por marcas de cerveja. Não há amplificação, e manda a boa educação que se ofereça à mesa uma e outra garrafa de cerveja para que os partideiros molhem o verbo. Os músicos (e que músicos) e os cantores circundantes vão de Ivone Lara a Alexandre Pires sem dificuldades, incinerando a bandeira dos nacional-populistas que pretendem entronizar a Portela num altar de autenticidade. Um dia, impressionado com um sujeito do tantã, perguntei seu nome: “É o Negão”, me respondeu um deles. Pensei em perguntar (e desisti): “Mas qual deles?”, no que meu interlocutor se antecipou, com uma gargalhada: “Fica difícil saber quem, né, irmão?”.

Na muvuca dos pagodes sobram histórias inacreditáveis. A da mulata oficial da PM que deu uma dura pública no namorado saliente. Do sujeito que, entendendo tudo errado, oferece umas amigas e seu apartamento emprestado “ali pertinho”. Da senhora que viveu na Europa como mulata profissional. Da morena que, se descrevendo como feliz proprietária de “peitinhos de pêra”, chorava lágrimas de esguicho depois de abandonada pelo namorado. Do convite para ir, perto da meia-noite, para um estabelecimento candidamente batizado Buraco do Galo, logo ali, em Oswaldo Cruz.

Foi numa dessas que conhecemos Paula, manicure de um salão em Madureira. Simpaticíssima, virou amiga de infância, relatando inclusive suas desventuras amorosas com o homem da sua vida que vinha a ser, também, o da vida de outra mulher. Tendo ela como guia, fomos, eu e dois amigos, a todos os bares da rua Clara Nunes, com direito a escala em um baile charme. Alta madrugada, em tempos pré-Lei Seca, pilotei perigosamente até o outro lado da cidade. De manhã, sofrendo as conseqüências etílicas da noite anterior, recebo uma ligação a cobrar no celular. Era Paula, minha amiga, preocupada que estava com a péssima combinação de bebida e direção: “Chegou bem? Graças a Deus”.

Essa gentileza e generosidade refletem na rua o que se vê no palco. Em dias de feijoada, a velha guarda é anfitriã de dezenas de artistas, consagrados ou desconhecidos. Naquele palco já vi Leci Brandão cantar a tradição da Mangueira, Neguinho da Beija-Flor mostrar o fino de seu samba romântico, Almir Guineto arrebentar nos grandes sucessos que fizeram do pagode uma moda nos anos 80, a velha guarda do Império, vizinha, fazer um show inesquecível.

Gostaria eu de cantar a história da Portela. Para mal e para bem, só posso falar do presente, frágil e fascinante. Mas não resisto a tomar emprestado o verso de Monarco, meu ídolo no samba de qualquer época, e, aí sim, mencionar o “passado de glória” da agremiação: “Se for falar da Portela, hoje eu não vou terminar”.

Paulo Roberto Pires é escritor, jornalista e editor, autor do romance Do Amor Ausente (Rocco, 2000).

O Show
Pagode da Família Portelense, 6/9 (primeiro sábado de cada mês), na quadra da Portela. Rua Clara Nunes, 81, Madureira, Rio de Janeiro.

O Filme
O Mistério do Samba, documentário de Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor. Já em cartaz nos cinemas.