Zé Di, Demônios da Garoa e Sônia Lemos

São Paulo dá samba também. Pelo menos os paulistas gostam de Samba, haja visto o número de casas de samba que animam a noite paulista. E dois exemplos de samba que sai de São Paulo, são os elepes “Zé Di” (Tapecar, SS008, junho/75) e “Samba do Metrô” (Chantecler, junho/75) com Os Demônios da Garoa – dois estilos, duas tendências – mas igualmente válidos pela preocupação de oferecer a nossa música popular.

Zé Di (José Dias, paulista de Mogi Mirim, 39 anos), é já um veterano compositor: desde os 15 anos vem participando de programas de calouros e à partir de 1963 começou a mostrar suas primeiras composições, conseguindo a primeira gravação em 1960, com “Boca de Caçapa”, Eclético e buscando seu lugar ao sol, chegou a vencer o 1o Festival de Música Sertaneja pela TV Paulista (Hoje Globo) e Rádio Nacional, com “Catira”. Depois compôs com Luiz Vieira “Caminhos do Amor” e “Escola da Vida”. Alguns interpretes – Hebe Camargo, Moacyr Franco, Jair Rodrigues e Noite Ilustrada, gravaram seus sambas, mas nenhum “aconteceu”. Nem mesmo o seu “Samba sem Viola”, em parceria com Dora Lopes. Em 1971, finalmente, surgiu sua chance de se lançar com interprete, gravando na Tapecar um compacto simples com “Independência ou Morte”, samba-enredo que fêz para a Escola de Sama Vai Vai do Bexiga, de São Paulo. (em 72, voltou a fazer o samba-do-enredo para a mesma escola, “Parabéns à Você”). Há dois anos, finalmente apareceu no carnaval paulista – fazendo o samba do Salgueiro (“Rei da França Na Ilha da Assombração”, em parceria com Malandro) e gravando, afinal, o seu primeiro elepe (“Zé Di… Samba”, Tapecar). Agora, já, portanto com um “curriculum” artístico enriquecido, Zé Di aparece com seu segundo elepe, que afinal mereceu maior promoção (ao menos em Curitiba) do que o primeiro que nunca encontramos sequer à venda nas lojas. Como reconheceu o radical J.R. Tinhorão, “de fato, embora este segundo disco ainda apresente muitos altos e baixos, em conseqüência da desigualdade das composições de outros autores que escolheu para cantar, dois sambas do próprio Zé Di os intituldos “Meu Recado” e “Não Me Atire Pedra” – recomendam por si sós a compra do Lp”.

Em “Meu Recado”, observou Timborão – e no que concordamos integralmente – Zé Di conta e canta maravilhosamente a sua própria experiência de criador das camadas humildes, confessando seu deslumbramento diante do sucesso, e aproveitando para responder aos que estranhavam o fato de um paulista ser capaz de se revelar bom compositor de sambas:

Comovido agradeço, feliz em dizer,

Crioulo não tem hora pra chegar.

Sambista não pede lugar pra nascer.

O disco poderia ser melhor, se Zé Di tivesse um pouco mais cuidado na seleção das músicas – mas infelizmente isso não ocorreu. De qualquer forma, Zé Di merece atenção e um crédito de confiança para o seu terceiro elepe: Faixas: “Alegria (Vinicius Mattos-Norival Reis), “No Pé da Cajarana” (Venâncio – Comrumba), “Luar” (Naval), “Samba é Carnaval da Vida” (Chimbirra – Agenor – Ronaldo Rosa), “Saudade” (Zé Di), “Corcoviei” (Luiz Grande), “Deixa de Chorar” (Raimundo Olavo) e “Festa Junina Em Dia de Carnaval” (Carlito Luiz Antonio).

Mais de 200 gravações em 32 anos de carreira. Eis apenas um dos índices impressionantes do grupo vocal Demônios da Garoa, hoje o mais antigo do Brasil, lançado em 1943 e que desde então permanece fiel a um gênero único: o samba paulista, numa linguagem sociologicamente rica e que tem em Adoniran Barbosa (a proposito, acaba de sair pela Odeon o seu segundo elepe como interprete) o principal compositor. Aproveitando sempre temas simples e populares, Os Demônios da Gâroa conseguem estabelecer uma comunicação fácil com uma ampla faixa de público. E se há 10 anos criaram “O Trem das Onze”, agora o grupo – Toninho “Botina” no violão tenor; Arnaldo, cantor-solista, Cláudio (pandeiro), Ventura Ramires (violão de sete cordas) e Robertinho (cavaquinho) – aparece com o “Samba do Metô”, comercial subtítulo dado a “Uma Simples Margarida” do bom Adoniran Barbosa. Aliás, apenas esta faixa, o “Asa Negra” e “Véspera de Natal” são de Adoniran, sendo as nove outras de diferentes compositores. Por exemplo, na abertura do lado A, uma tentativa de recriar “Coração Materno” (Vicente Celestino), que Caetano Velloso, no auge do tropicalismo, já fez de forma muito melhor. Dona Cacilda de Assis – que se não nos enganamos é a senhora que recebe o “cabocro” “Sêo Sete da Lira” (há 3 anos, transmitido via Embratel, por sua presença nos programas Flavio Cavalcanti, Silvio Santos e Chacrinha), em parceria com Waldemar Torres é autora da faixa “O Cigarro acabou”. O ferroviarismo musical dos Demônios tem mais uma faixa – o conhecido “O Trem Atrasou” (rtur Vilarinho, Estanislau Silva e Paquito), enquanto que “O Cantor” (Roberto Barbosa), vale um destaque pelo apêlo que faz para não se esqueça de anunciar o nome dos compositores das musicas apresentadas. Um pedido muito justo.

Menininha bonita, lançada há sete anos com uma das mais bonitas músicas dos anos 60 (“Viola Enluarada”, Marcos, Paulo Sergio Valle), Sonia Lemos ganhou um lançamento em elepe (“Philips, R 765043 L, 1968) para a qual não estaa preparado. Desapareceu de circulação, reconheceu-se a um preparo. Assim, apesar de sua boa voz, não emplacou. Desapareceu de circulação, reconhecesse a um preparo artístico, só ressurgindo no ano passado, quando gravou para a Continental um compacto simples com o samba “7 Domingos” (Agepe/Canário). A boa aceitação do disco e o retorno de Sonia no esquema promocional (fez inclusive uma temporada de sucesso no restaurante Mouraria), animou a Continental a investir um elepe, que produzido com muito esmero, está entre os bons lançamentos de seu último suplemento. Basta dizer que mais de 40 músicos – desde o violão de 7 cordas do bom Dino – até um respeitável seção de cordas (8 violinos, 4 violas, 3 cellos) – foram mobilizados pelo produtor Ramalha Neto, um record-man respeitável. A participação do trio vocal As Gatas (Dinorah, Euridice e Zenilda), mais Copa, Tufic e Arlindo nos corais, a percussão do grupo Nosso Samba e os entusiasticos elogios dos textos de Waldinar Ranulpho e Sérgio Fonseca na contracapa não foram em vão. Realmente, Sonia Lemos melhorou bastante em sete anos e sem alcançar a dimensão de uma Beth Carvalho ou Clara Nunes – hoje as duas melhores sambista brasileiras – este seu lp (“Sete Domingos”, Continental, julho/75) é agradável e brasileiro. Compositores excelentes como Leci Brandão (“Grêmio Recreativo Escola de Samba”), Noca-Délcio Carvalho (“A Queda”) e os promissores Romildo/Toninho (“Baiana de Rosário) ajudaram muito o nível deste disco honesto e bem intencionado.

(1) – Além da Discofam e da Cartaz, mais uma nova gravadora aparecendo na praça: a Hara Internacional. Em seu primeiro suplemento – ao que parece distribuido pela RCA Victor, mas sem qualquer promoção (ao menos divulgador Kleber Araújo, não recebeu qualquer comunicação), destaca-se um disco: uma gravação (mais uma) da famosa polêmica Noel Rosa (1910-1937) e Wilson Baptista (1913-1969), da qual surgiram alguns clássicos como “Feitiço da Vila”, “João Ninguém”, “Eu Vou Pra Vila” e “Rapaz Fogad”, todos de Noel.

(2) – Quando esteve em Curitiba, há um mês, acompanhando o saxofonista Victor Assis Brasil, o extraordinário Maurício Einhorn, sem dúvida um dos melhores executantes de harmônica do mundo, nos falou com entusiasmo do elepe que havia acabado de gravar na Phonogram: solos de canções que receberam o Oscar, Segunda-Feira, o eficiente Osmar Wilson começou a divulgar este elepe importante e que motivará um especial sobre Einhorn, na próxima semana, em nossa produção DOMINGO SEM FUTEBOL (Rádio Ouro Verde, 15/18 horas).

(3) – Adiada temporada de Edu Lobo Gianfrancesco Guarnieri no auditório Bento Munhoz da Rocha Neto, na primeira semana de agosto. Em compensação, Ricardo Cravo Albim, fx-MIS, ex-INC, vem lançar a sua coleção “100 Anos de MPB” (Tapecar/Projeto Minerva). Traz juntos alguns amigos – o flautista Altamiro Carrilho, a sambista Elza Soares e o bom modinheiro Paulinho Tapajós – para u show, com portas abertas ao público.

(4) – Reestruturado o Trio Irakitan, que gravou na Continental o lp “Os Sucessos Que Gostamos de Cantar”. Pena que o nível do que o grupo gosta de cantar em 75 não se comparece com o que o original preferia na década de 50. Basta dizer, que entre os compositores incluídos neste lp estão Lindomar Castilho, Ronaldo Adriano ””Você é Doida Demais”), Chico Xavier (“Não Acredito Mais”) e Mendes/Pardal (“O Divórcio Vai Chegar”).

(5) – “Baiano e os Novos Caetanos”, com Chico Anisio e Arnauld Rodrigues, vendeu tanto que a dupla fez novo elepe na CID: “Azambuja & Cia”. Onde a dupla de “Chico City” traz mais algumas composições e números de humor. Chico mostra que é tão bom em disco quanto na televisão.

(6) – Um elepe importante “Portugal: Nostalgia de Alemar” Capa dupla longo texto explicativo, este album vários compositores e interpretes julitanos. Um disco que merece atenção especial para quem se interessa pela música e cultura da boa terra.

(7) – Depois do elepe de Urbie Green, a Copacabana coloca no Brasil mais um elepe na base do “Big Band”: “Hits o The 30’s” vai agardar bastante quem gosta de nostalgia e encantora música daquela década “Stardust”, “Caravan”, “American Patrel”, “Solitude” etc.

(8) – Depois de ficar mais de dois anos sem gravar, curtindo uma longa temporada parisiense o bom Nonato Buzar volta com um elepe (“Nonato Buzar e O País Tropical”, Copacabana 11998), onde regionalmente, o destaque é Caioba, em parceria com o curitibano Heitor Valente. Que foi, por sinal, quem o trouxe a Curitiba, para badalativas temporadas em 1973.

Texto de Aramis Millarch, publicado originalmente em:
Veiculo: Estado do Paraná
Caderno ou Suplemento: Nenhum
Coluna ou Seção: Música
Página: 51
Data: 03/08/1975