Album inédito na net

Raramente lembrada entre as cantoras/autoras da MPB, a carioca Dora Lopes de Freitas teve prestígio na época áurea do rádio e emplacou alguns sucessos de sua lavra, os sambas Toalha de Mesa, Ponto de Encontro e Samba na Madrugada e a marchinha carnavalesca Pó de Mico (“Vem cá seu guarda / bota para fora esse moço/ que está no salão brincando/ com pó de mico no bolso”).

Depois desviou-se para a área brega compondo para Agnaldo Timóteo, Edith Veiga e Waldik Soriano e participando como jurada do programa Raul Gil (a exemplo de Aracy de Almeida no Silvio Santos).
Dora, que em seu disco Testamento, de 1975 como um Nelson Cavaquinho de saias tematizava principalmente a morte, morreu praticamente esquecida (e endividada) em 1983, aos 62 anos.
Nos seus epitáfios jornalísticos ninguém mencionou esse inacreditável disco, proveniente do selo Mocambo que deve ter sido gravado por volta de 1959 (não há qualquer informação na ficha técnica).

Do contrário, a cantora teria de ser incluída entre os primeiros militantes da bossa nova, especialmente pela faixa Tostão Não É Troco.
De arquitetura dissonante, costura de violão, um breve scat singing e quebrada rítmica típica, a letra (e música) da cantora dispara: “você é quadrado/ você não casa no meu sincopado / você é todo na pauta / eu sou improviso / eu sou bossa nova / você é muito implicante / o meu beijo é dissonante”.
Além disso, na faixa título ela também injeta bossa nova no Dicionário de Gíria.

No mais, o repertório diferentaço (que inclui outros autores obscuros como Ary Monteiro, Cesar Cruz, Zeca do Pandeiro, Arthur Montenegro, Franco Ferreira e o único razoavelmente conhecido, Aldacyr Louro) traz o requebro dos sambas de gafieira coalhados de gírias de época.

“Manera a raça e joga recuado/ tenteia que afobado come cru / vai ao local do desacerto e diz a umas e outras”, aconselha Bom Mulato.
“Micha essa banca de galã continental / você não é baton pra estar em tudo que é boca”, cobra Galã Continental.
Em Falso Cabrito, a abertura é um boogie woogie cortado pela cantora irada: “neca de transviado, neca de rock’n’ roll, isso tudo é de araque, o negócio é teleco-teco”.
E engata um samba onde um certo Arnaldo é criticado por andar atrás das ninfetas. “Quem gosta de broto é cabrito”, manda Dora com sua voz rasgada.
Na Baiúca do Leleco quem faz gracinha “leva um teco”.
Ela confere a outro personagem o Diploma de Otário: “No seu bolso falta sempre 90 centavos pra um cruzeiro”.
Já Conversando na Gíria demanda um Aurélio datado do ramo: “uns e outros não gostam da sua chinfra/ pode ser mão de cinza / aperta seu passo major / vá lá na muvuca / faz a pedida na hora maior”.

(De)Morô, malandro?

(Texto de Tárik de Souza)

1 Dicionário da gíria
(César Cruz – Dora Lopes)
2 Bom mulato
(Ary Monteiro – Zeca do Pandeiro)
3 Engolobada
(Zeca do Pandeiro – Geraldo Seraphim)
4 Banca de brabo
(Dora Lopes – Franco Ferreira)
5 Galã continental
(Dora Lopes – Franco Ferreira)
6 Nega Odete
(Aldacyr Louro – Dora Lopes)
7 Falso cabrito
(Dora Lopes – Franco Ferreira)
8 Conversando na gíria
(Zeca do Pandeiro – Arthur Montenegro)
9 Tostão não tem troco
(Dora Lopes)
10 Baiuca do Leleco
(Zeca do Pandeiro – Dora Lopes)
11 Diploma de otário
(Ary Monteiro – Dora Lopes)
12 Ninando muriçoca
(Ary Monteiro – Zeca do Pandeiro)