O Nosso Bom Samba

Aos 35 anos de idade, 12 de carreira, dono de uma sólida fortuna feita com o Samba, o paulista Jair Rodrigues (de Oliveira, faz um disco de bom nível, superior ao super promovido algum comemorativo aos seus 10 anos de Philips, lançado há poucos meses. Neste “… Abra um sorriso novamente” (Philips, 6349120, novembro/74), o sorridente crioulo que teve uma boa e digna participação para a difusão do [autêntico] sambão na fase do Fino da Bossa, ao lado da pimentinha Elis Regina, apresenta um [repertório] de bom nível, apresentando-se ao lado de excelentes instrumentistas, que o auxiliam a valorizar bastante este lp – em nossa opinião música dos melhores na (já) imensa fonografia de JR.

Produzido por Mazola, até agora limitado a discos comerciais, das etiquetas subsidiárias da Phonogram, “… abra um sorriso novamente”, é um disco digno em que Jair Rodrigues soube capitalizar o seu imenso prestígio para homenagear compositores da maior expressão artística, como o bom amigo Ismael [Silva], dono de uma imensa obra – e muitos sambas inéditos, mas que raramente é procurado pelos cantores em busca de repertório, ou [Nelson] Cavaquinho, este, felizmente, já mais lembrado – embora ainda humilde e sozinho em seu imenso talento. De Ismael, Jair gravou o irônico “Feitiçaria”, onde é acompanhado por Edson no violão e Wilson Mauro no piano, com arranjo de Wilson Mauro. Já de Nelson Cavaquinho (e Elcio Soares) é “Juízo Final”, onde no violão de 7 cordas temos o extraordinário Dino (da Época de Ouro), mais Edson no violão, eco no cavaquinho, Catulo da Paixão Cearense (1863-1946) é reverenciado com uma sentida gravação de sua mais famosa composição, “Luar do Sertão”, onde Jair é acompanhado pelo Quinteto Violado, com apropriado arranjo e Toinho Alves. A [música] que dá título ao lp é de Edil Pacheco, um dos mais talentosos compositores a nova geração de Salvador, que ao lado de Riachão e Batatinha, anima as rodas de samba nos fins-de-semana do Teatro Vila Velha, na boa terra. Proprietário de ma loja de discos em Salvador, amigo da madrugada e do samba, Edil tem uma imensidão de [músicas] bonitas, pensa em fazer um lp, mas continua pouco conhecido em Salvador, de forma que é importante que Jair agora auxilie a promovê-lo. Outra boa surpresa deste disco é uma [música] de Olmir Stocker, o Alemão, guitarrista que viveu 3 anos em Curitiba, quando o conjunto Breno Sauer animava a noite curitibana, atuando no Marrocos. Olmir, em parceria com Boby D’Melo é o autor de “Paspalho”, um bonito samba, onde Mamão executa bateria, Edson no violão, Menezes no cavaquinho e na percussão há o misterioso Cream Crackers. Dos compositores mais jovens temos Gracia do Salgueiro, Pedrinho do Borel, no irônico “Quero Meu Boi”, Benito Di Paula com “Amanhã vai Ser Bom”, Adylson Godoy-Carlos Bandeiro em “Meu Tamborim”, Alberto Leuiz em “Sei Lá Coração”, Zuzuca com “Sonhos de Menino” e, na linha de abertura para uma [música] mais comunicativa, Ivan Lins, Ronaldo Monteiro de Sousa, com “As Minhas Leis”.

Sem chegar a categoria de obra-prima ou merecer a definição de [antológico] este “… abra um sorriso novamente…”, é um lp que merece a atenção dos fãs do bom Samba, mostrando um intérprete seguro – que acrescenta algo mais do que apenas o dentifrício sorriso com o qual tem marcado a maior parte de sua carreira.

Texto de Aramis Millarch, publicado originalmente em:

Veiculo: Estado do Paraná

Caderno ou Suplemento: Nenhum

Coluna ou Seção: Jornal do Espetáculo

Página: 14

Data: 24/11/1974