Vinil!!!!

Mais que uma tecnologia de registro sonoro, o vinil envolve fetiche. Para escutar um som qualquer, basta ligar um microsystem; para ouvir vinil, é preciso mais. Dedilhe longamente a coleção de long-plays (LPs), degustando as capas com atenção. Uma delas encherá seus olhos de brilho. Saque o vinil do plástico, com delicadeza. Frente a frente com a vitrola, o diamante da agulha reluz, convidativo. Convite aceito, de imediato. A bolacha negra gira, gira, gira. No ritmo. Carinhosamente, o dedo indicador levanta a agulha e pousa o diamante – aquele chiado único aguça os tímpanos. É agora. Entra o chimbau, seguido da guitarra impregnada pelo wah-wah. Não demora, uma nota grave bomba o coração. O primeiro compasso. No segundo, entra a voz de Isaac Hayes interpretando o tema do filme Shaft, de 1971. Maravilha. E a

viagem apenas começa.

Há menos de dez anos, uma vitrola de canto com uma lustrosa bolacha preta em rotação constante era presença obrigatória na sala de estar dos ouvintes de música no Brasil. Uma fileira de caixas de papelão ornadas com imagens sortidas, que protegiam o vinil e entretinham o ouvinte, completava o conjunto. Não fosse o amor do mineiro Nilton Rocha, 54 anos, essa fileira de capas estaria exatamente do jeito que seu pai deixou: empilhada no passado.

Em 1999, Nilton ressuscitou a indústria brasileira do vinil com a fundação da Poly Som Comércio e Indústria de Plásticos Ltda. No numeral 101 da rua de terra Prudente de Morais, bairro de Areia Branca, em Belford Roxo, na Baixada Fluminense (RJ), um terreno de 1500 metros quadrados abriga cinco funcionários (Nilton, Benedito, Luciana, William I e William II), dois freelancers (Tiquinho e Mendonça), uma máquina de corte, uma caldeira, duas banheiras de galvanoplastia, três estruzadoras e cinco prensas. Material humano e industrial que produzem uma média de seis mil LPs por mês. É tudo o que restou da indústria brasileira de discos de vinil.

Mais que uma linha de produção, os funcionários da Poly Som trabalham como uma família – e pegam no batente com gosto quando o assunto é dar vida a um punhado de resina de PVC. Em 1969, Nilton Rocha, natural de Itajubá (MG), mudou-se para o Rio de Janeiro para tentar a sorte. De cara, começou a trabalhar na manutenção das máquinas da PolyGram e apaixonou-se pelo maquinário que a produção do vinil exige. Foi empregado nas fábricas Tape K e CID, até seu fechamento, em 1995. Durante quatro anos, Nilton trabalhou como freelancer para outras fábricas e, aos poucos, foi comprando o equipamento de unidades desativadas das gigantes PolyGram e Continental. Quando a saudade sufocou, abriu a Poly Som.

Dos tempos da CID, Nilton trouxe um paraibano chamado Benedito Simplício Marques, 63, o responsável pelas banheiras de galvanoplastia, função que exerce há 35 anos. A única mulher da equipe, Luciana Gonçalves, 25, é quem põe ordem na firma: cuida de toda a parte administrativa. Seu irmão mais novo, William, 21, também não corre da responsabilidade e responde pela parte mais importante da produção de um LP: o corte do acetato que gera a matriz. “Me sinto bem fazendo o que faço. São os pequenos detalhes que tornam brilhante a qualidade de um vinil”, ensina o garoto. Se depender do parco e valente staff da Poly Som, não vai faltar mão-de-obra qualificada para a manufatura das bolachas brasileiras.

NEM JESUS SALVA

A fábrica da Baixada Fluminense nunca fechou suas portas definitivamente, mas chegou bem perto. O negócio pertencia a um pastor evangélico, que, quando resolvia produzir, limitava-se a prensar algumas cópias de música gospel. Dário Nunes, dono do selo de rap Porte Ilegal e atual cliente número 1 da Poly Som, há dez anos prensa em Belford Roxo: “Muitas vezes, fui eu mesmo prensar meus discos porque o pastor não tinha funcionários”. Pastor deposto, veio nova administração e a fábrica respondia pelo nome de Vinilpress. Em 1998, os pedidos eram raros e o dono estava prestes a desistir. Com muito custo, Nilton alugou o espaço e instalou suas máquinas. Em março de 1999, prensava, feliz da vida, o primeiro pedido de sua empresa: 10 mil cópias do hit Jesus Garante a Libertação.

E Deus se fez presente nos primeiros meses da Poly Som. “Tinha doze funcionários trabalhando bastante graças à igreja Deus é Amor, que prensava cem mil cópias por mês”, recorda Nilton. Ao longo do ano, os religiosos baixaram a produção e a Poly Som foi obrigada a ampliar o ramo de atividades: passou a trabalhar com injeção de plástico em geral. Cornetinhas para festas infantis, copos e aparelhos antiácaro passaram a dividir com os discos a atenção dos funcionários.

Hoje em dia, Deus não dá mais aquela força. Sem a igreja, além do pessoal do hip hop, só o rock independente e a música eletrônica fazem os pedidos que garantem o sustento de Nilton e seus funcionários. A matéria-prima para a produção da matriz é o disco de acetato, material importado que custa 1 600 dólares a caixa com 25 unidades, capazes de produzir 12,5 vinis (é necessário um acetato para cada lado do disco). Com o dólar em alta, os pedidos caem, o lucro da Poly Som cai junto e a probabilidade de a agulha de Nilton pular aumenta.

Se os funcionários da fábrica trabalhassem nas cinco prensas a todo vapor, a produção seria de cinco mil LPs por dia. Mas, atualmente, a Poly Som produz apenas às terças, quartas e quintas-feiras, das 7 às 17 horas – desovando menos de 6 mil bolachas por mês. Se a crise ainda não derrubou o ânimo de Nilton, ele também não pretende manter a fábrica se ela entrar no vermelho por muito tempo… até o amor tem limite.

REVOLUÇÕES POR MINUTO

Os discos de vinil aterrissaram no Brasil em 1958, após desbancarem os antigos 78 rotações por minuto. Suas vantagens eram: espaço para mais músicas, diminuição de ruídos e maior durabilidade. Começava o reinado do long-play no Brasil, que se tornou o maior produtor de vinil da América Latina. Na década de 70 e começo da de 80, o LP viveu seu auge. Existiam seis fábricas de grande porte, no Rio de Janeiro e em São Paulo. A principal delas, a RCA (que virou BMG), tinha 1800 funcionários, 45 prensas e produzia em média três milhões de LPs por mês.

Em 1994, o Brasil foi o país que consumiu e produziu mais LPs no mundo: aproximadamente 14,5 milhões, o equivalente consumido na Europa e nos Estados Unidos juntos naquele ano. Mas, apesar dos números, a agulha do vinil já começava a entortar no Brasil. Por ironia do destino, o LP levaria de um outro disco o mesmo golpe que havia aplicado nos 78 RPM. O novo invasor, intitulado compact disc ou simplesmente CD, suportava o dobro de músicas, tocava em aparelhos menores e reproduzia o som com mais nitidez.

Se em 1991 foram vendidos 174,8 milhões de LPs no mundo, em 1994, depois de o CD ter metido o pé na porta da indústria fonográfica nos EUA e na Europa, consumiram-se apenas 37,7 milhões de discos. O Brasil passou a ser um dos poucos países que ainda prensava bolachões. Mas por pouco tempo. Já em 1996, cerca de 6 milhões de CD players foram vendidos em território nacional e os números do vinil despencaram de 14,5 milhões para 1,5 milhão, segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD). Não teve jeito: a agulha perdeu o rumo. Rotações praticamente encerradas.

Clube do disco

De lá para cá, o vinil só sobreviveu graças aos DJs e colecionadores fiéis. Mas quem já compartilhou bons momentos da vida com o chiado inconfundível do LP não precisa de muito para reintegrar esse time, acreditam os entusiastas. “DJ tem que tocar vinil”, afirma o paulistano Marky, um dos principais DJs de drum’n’bass do mundo: “A palavra disc-jóquei nasceu de um cara que botava dois discos num prato e não CDs na gaveta”, defende ele. “Não existe drum’n’bass sem vinil”, decreta Marky.

E como ficaria a indústria nacional com o fim da Poly Som? “Se essa fábrica fechar, vai ser ruim demais. O rap é a terra do vinil. Essa fábrica não pode morrer”, ora Rappin’ Hood, prevendo o estrago que isso representaria para o rap nacional. Prensar fora do Brasil é uma possibilidade, mas sai muito caro. Além do custo de produção, há os gastos com importação – o vinil é frágil e relativamente pesado.

“Não amo nem hip hop, nem música eletrônica, mas a cultura do DJ e do sampler trouxe os vinis de volta”, agradece o músico Ed Motta. “O CD não interage com a música, não chega, não dá beijinho. No analógico, rola sexo”, acredita ele. Proprietário de uma coleção respeitável de LPs, Ed jura que o CD tem som achatado: “É igual lasanha congelada”, define.

“O CD é muito limpo, sem ambiência, sem alma, sem sentimento”, arranha DJ Hum, parceiro do rapper Thaíde e mestre na arte de mixar e fazer scratches (ação de esfregar o disco sob a agulha para produzir efeitos sonoros). Aliás, o scratch é um efeito exclusivo do disco de vinil e indispensável ao hip hop – o que justifica o fato deste gênero responder pelo maior número de pedidos da Poly Som. Para Max de Castro, a vantagem do vinil está no fato de que “muitas coisas boas da música brasileira nunca saíram em CD”.

“Cada vez mais a pick-up se democratiza”, acredita Marcelo Yuka, líder d’O Rappa, banda que teve seus três primeiros discos prensados na Poly Som. “Caso venha a se firmar como instrumento, o vinil é a munição. E, num bom equipamento, ele dá maior definição de freqüência. No CD, as ondas sonoras tendem ao agudo. Isso sem falar nas capas…”, ensina Yuka. Outro que aprecia o formato maior das bolachas é o designer Rafic Farah: “Por causa do tamanho, dá para elaborar melhor a imagem. O design do vinil como produto é muito mais interessante – o peso, o tamanho, o formato…”.

No momento, a gravadora Warner estuda a idéia de lançar comercialmente o vinil do novo O Rappa – os demais foram feitos apenas para divulgação e DJs. Mas acreditar que as bolachas voltarão à grande escala é pura ilusão. “É uma mídia para profissionais”, acredita João Marcelo Bôscoli, produtor musical e dono da gravadora Trama. “As gravadoras não têm interesse em vinil. Querem é investir no DVD”, afirma Bôscoli. Jorge Lopez, vice-presidente de vendas da gravadora Universal, afirma que “o CD se popularizou demais e o vinil não é mais interessante comercialmente para as grandes gravadoras”. Eduardo BiD discorda. Produtor musical (Chico Science e Planet Hemp) e líder do Funk Como Le Gusta, dispara: “Quem tem sabedoria institucional, lança em vinil. Mas a maioria só quer lucro”. O primeiro disco do FCLG, lançado em 1999, retorna em vinil às lojas este mês, pela pequena e independente gravadora ST2. Embora tecnicamente não haja consenso sobre que formato é melhor, o CD ou o LP (ambos têm vantagens e desvantagens), um fato inegável é que a pirataria em grande escala é praticamente impossível no mundo das bolachas.

ÚLTIMA FAIXA

Os amantes do vinil, dependentes auditivos do chiado, que não se satisfazem apenas com os sons do passado, agradecem o empenho de Nilton, Luciana, Benê, William I e William II e torcem para que eles continuem massageando nossos tímpanos com suas heróicas produções. O esforço da Poly Som é garantido. Agora, só falta a disposição das gravadoras e dos selos em lançar seus artistas no clássico formato LP. Enquanto isso não acontece com mais freqüência – se é que vai acontecer –, o bom e velho Shaft continua a girar…

Ainda faltam 5 minutos para terminar o lado A. Sossego. Enquanto a bolacha dá voltas sem parar, assistida por olhos atentos, o pensamento embala no ritmo que julgar necessário. Intervalo. Aproveita-se para pegar algo e molhar a garganta. A troca de lado, afinal, é uma vantagem. Quando faltarem poucos minutos para o fim do lado B, os dedos entram de novo em ação, selecionando as capas e puxando os redondos do plástico como num velho ritual que se arrasta por horas a fio. De preferência, a vida inteira.

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