Deste disco temos a mais prazerosa obrigação de destacarmos “Aniceto do Império com o partido alto A inteligência”.
Embora não tocasse instrumentos de sopro e nem de corda e não chegasse a ser um percussionista, era capaz de fazer ritmo no pandeiro para se acompanhar.
Sua grande qualidade consistia em coreografar o jongo e em improvisar versos de partido-alto, apesar de não se julgar um bom jongueiro.
Em compensação, tinha consciência de ser partideiro imbatível, considerado como tal por todos.
Inspirado nos pontos de demanda do jongo desenvolveu um tipo especial de partido-alto, dialogado entre o solista e a roda – provavelmente criação sua, já que não se tem notícia da existência de outros exemplos que não os cantados por ele.
Há, pelo menos, duas descrições desse tipo de partido.
A primeira, transcrita por Sérgio Cabral (O Globo – 12/02/1979): “Fiz um samba chamado “Inteligência” que é um teste para improvisadores.
O samba faz perguntas e o pessoal tem que responder na rima.
O refrão é assim:
Se os bichos são inteligentes
Por que não as criaturas?
Aí eu faço os pedidos e os outros vão respondendo:
– Me digam qual é
A pedra mais doçe?
– Rapadura.
– Qual a defesa do banguela?
– Dentadura.
– Cite uma cidade
Lá no Oriente.
– Cingapura.
– Chegou a invernada de Olaria.
– É cana dura.
– Quando o malandro
Perde o conceito?
– Quando dedura.
– Quando a mulher
Engana o homem?
– Quando ela jura.
– A nossa mãe
Jurou ao nosso pai.
– Entretanto é uma boa criatura.
– Não me fale mal
Das mulheres.
– Fico invocado
E ninguém me segura.”.

A segunda, descrita por Marília Barboza da Silva e Arthur Loureiro de Oliveira Filho, no livro “Cartola, os tempos idos”: “O negro velho, carapinha branca, bigodões de algodão doce na cara de chocolate, ia só embalando a turma na magia das rimas”:
Eu vou cantar agora
Porque já está…
Aniceto parava e repetia, pedindo resposta:
Porque já está?
Aí o pessoal atinava e respondia, completando a melodia e a rima intuitivas:
Na hora!
Aniceto, então, continuava:
Que o homem que é homem
Não?…
O coro, já agora alerta, ia só respondendo:
Não chora.
Aniceto começava a dialogar com o grupo, que até parecia coisa ensaiada, mas era improviso puro mesmo:
Ela se chama Aurora
E diz que já vai…
Todos emendavam logo:
Embora.
O negro velho ria satisfeito e ia em frente:
Urubu pra cantar…
E a resposta estava na cara:
Demora.
O partideiro então, com toda a malícia da raça estampada nas feições fortes, perguntava:
E a mulher do meu filho
É a …
Metade dizia:
Aurora.
E o resto cantava:
Dora.
Aniceto agora se esbaldava. Sacudia severamente a cabeçorra numa negativa enérgica:
Não senhor, não e não
É a minha nora.
Tinha gente que chorava de tanto rir. O velho ia em frente, trinta, quarenta minutos, improvisando sem parar. Referia-se ao que estava acontecendo no momento, com versos criados no momento”.
Creio que depois desta aula de improviso descrita no texto acima não há mais nada a comentar.

Este comentário e apenas uma parte da biografia de Aniceto postado no site
Berço do samba

LADO A:
1-Sonho do Tesouro (Edson Menezes-Roque do Plá) – Partideiro: Roque do Plá
2-Pisa na Canoa (Carlito-Vicente) – Partideiro: Carlito
3-Minha Sinhá (Arielson e Beto) – Partideiro: Arielson da Bahia
4-O Bom Remador (Preto Rico-Moacyr da Silva) – Partideiro: Preto Rico
5-Desfiada sem tutu (Dauro do Salgueiro-Ney Lopes) – Partideiro: Dauro do Salgueiro
6-Eu não sou molambo (Luiz Grande-Joaozinho da Pecadora) – Partideiro: Luiz Grande
7-Olha lá Tomé (Walter da Imperatriz) – Partideiro: Walter da Imperatriz

LADO B:
1-Sonho de festa (Dicró) – Partideiro: Dicró
2-Vamos se cuidar (Eliezer Gonçalves-Jorge dos Santos) – Partideiro: Eliezer da Ponte
3-Voce tá é bebo (Edson Menezes-Baiano do Cabral) – Partideiro: Baiano do Cabral
4-Maria da Praia (Gerson Alves-Carlos Eugenio) – Partideiro: Nelson Cebola
5-Maria Devagar (Claudionor Santana-Betinho da Balança)- Partideiro: Betinho da Balança
6-Inteligência (Aniceto do Império) – Partideiro: Aniceto do Império

Este disco foi um presente do blog do Carlinhos do cavaquinho.
Grato por essa viagem no tempo.