Na última parte desse bate-papo, Mattoli nos conta sobre o projeto que contou com a participação do Clube Do Balanço, chamado OE: Brazil…

Arquivo – E como apareceu esse projeto da Nova Zelândia, OE:Brazil ?

Mattoli – O OE foi um projeto bem interessante, que caiu no colo da gente. Certo dia um conhecido me procurou dizendo que o representante de uma gravadora da Nova Zelândia estava querendo vir pro Brasil.

Ele viria com uns artistas da Nova Zelândia e queria fazer umas jams com artistas brasileiros, gravar um disco e lançar por lá.

Eu falei:
“Tá legal. O cara vem aqui e vai querer fazer com Ivete Sangalo, Marisa Monte, Caetano Veloso, algum percussionista do Rio de Janeiro, Timbalada na Bahia… Algo nesse estilo.”

Mas esse cara insistiu:
“Vai lá conversar com ele.”

Arquivo – E o cara chega aqui pra fazer um disco com Zimbo Trio, Barbatuques, Drumagick, Funk Como Le Gusta, Clube…

Mattoli – Exatamente. Esse cara se chama Mike, da gravadora Loop. É um cara bem esperto de lá. E essa geração de artistas de lá é muito boa também.

Eles tiveram aqui antes do projeto e fizeram uma pré-pesquisa. Compraram cerca de 250 discos independentes além, é claro, dos famosos.

E ele sacou nessa pesquisa que em São Paulo tinha uma cena interessante, que não era o óbvio da Bahia e que não era o óbvio nem de São Paulo.
E acabou chegando em 15, 20 discos, dentre esses estavam o Funk Como Le Gusta, Karnak, Zimbo Trio, Barbatuques, Clube.

Ele sacou que em São Paulo, apesar de não ser uma capital turística, tinha uma cena musical independente muito mais forte.

Dai ele veio falar comigo:
“Olha, esses são os artistas, já distribuímos os discos de vocês e a gente está trazendo os discos deles pra vocês verem se rola alguma afinidade.

Esses caras vão ficar um mês numa casa aqui em São Paulo e a idéia é fazer jams sessions e filmar tudo pra sair em dvd, num documentário.
Depois vocês entram no estúdio e fazem uma faixa juntos.”

E eu falei:
“Beleza cara, vamos lá.”

Arquivo – Você achava que era só pra saber se tinha uma possibilidade de rolar…

Mattoli – E ele já veio com o convite pronto, tipo “o contrato é esse…” e a gente embarcou na loucura dele:
“Pô, é Nova Zelândia !”

E chegou esse pessoal aqui, uma puta turma legal.
Desde neguinho que faz rap misturado com musica maori, uns caras mais do pop, uma cantora jazzística, o pessoal do eletrônico e também uma cantora brasileira que mora lá, a Alda Rezende, mineira.
Um pessoal bastante antenado musicalmente, um pessoal esperto.

E a gente meio que no chute achou um cara legal, o Barnaby que é da banda Black Seeds, que é mais na linha Dub e eu disse que o Clube talvez desse bem nessa linha

Nos encontramos com ele junto com um tradutor, já que ninguém fala muito bem inglês…
E ele disse:
“Eu tenho a idéia de fazer um reggae e tal, aqui está a melodia.”

E eu:
“Legal esse reggae aí, mas… vamos dar uma pincelada nisso.
Vamos fazer de conta que é um samba”.

Na hora que transformamos aquilo o cara ficou doido !

Ensaiamos umas duas vezes e eu falei:
“E aí, vamos Gravar ?”

E ele:
“Gravar ? Vamos !!!”

Marcamos no estúdio e quando chegou a hora ele falou:
“Mas como a gente vai fazer, como vai ser ?”

E eu:
“Barnaby é assim: a gente vai ali monta o baixo, a bateria, o teclado, o violão etc..
Você canta aqui nesse microfone.
Aquele cara dá rec e grava !

No Brasil á assim, lá vocês devem fazer arranjo, devem fazer uma reunião.
Aqui a gente vai lá e faz um som.”

E ele:
“Uau, vocês são objetivos hein ?”

Passamos o som duas vezes, gravamos e o cara chapou:
”Parabéns, vocês são muito enturmados.”

E eu disse:
“Aqui é assim cara, futebol antigo.”

Arquivo – Me lembro que você levou ele no Teatro Mars, num show do Sambasonics (em breve bate-papo com Marcelo Munhoz), e realmente ele estava pirando com aquilo !

Mattoli – Quando eles vêem outra referência musical os caras piram mesmo.
O interessante é que isso também aconteceu com outros artistas, a faixa da Hollie com o Zimbo Trio ficou linda. A do Barbatuques também…
Ficou um disco muito interessante.

Só que na hora de lançar isso lá, como eles não podiam chamar todos esses artistas porque seria muita grana, eles chamaram o Marcelo do Barbatuques, o Edu Peixe e eu.
Não sei ao certo por que… Talvez porque fomos os que mais compraram a briga.

Chegamos lá, ensaiamos com uma banda de lá, mesmo. Todos esses artistas e um puta tecladista chamado Jonathan.
Fizemos três shows geniais. Até fiz uma tatuagem Maori !

Arquivo – E os caras conseguiram levar as músicas numa boa ?

Mattoli – Sim, super na boa. É aquela história de misturar coisas, abrir caminhos entre estilos, sempre saí alguma coisa boa disso.

Tudo que fica muito estagnado, pode ganhar em pureza mas perde em emoção. Se você for ver, o samba tem essa característica.
Ao mesmo tempo que consegue se manter puro ele consegue se misturar, sem problema.

Arquivo – Para finalizar, nos fale um pouco sobre o 3º cd.

Mattoli – Esse projeto se chama Pela Contramão.
Vamos fazer uma coisa bem autoral. Não que nós, nunca mais iremos fazer regravações. Mas optamos por esse projeto porque nos dá a liberdade de ser um trabalho bem mais barato.

Arquivo – E quando saí o Pela Contramão ?

Mattoli – Muito em breve !

Arquivo – Estamos aguardando.
Mattoli, muito obrigado pelo papo.

Mattoli – Valeu rapaziada.