Agora, a “menina” sobe a ladeira
João Só – A 01 –  Menina da Ladeira
João Só – A 02 – Samba do Engarrafamento
João Só – B 01 – Cheguei, Baixei, Saravei
João Só – B 02 –  Vou Procurar Minha Menina
João Evangelista Melo Fortes ninguém conhece. O apelido João Só pode refrescar a memória de alguns. Mas, basta cantar as primeiras estrofes de Menina daladeira que imediatamente o cantor baiano é lembrado. Os versos “Menina que mora na ladeira/ E desce a ladeira sem parar/ Debaixo do pé da laranjeira/ Ela senta pra poder descansar…” tocaram sem parar durante todo o ano de 1971. “Fico feliz de ter ficado em primeiro lugar, na frente de Jesus Cristo, do meu amigo Roberto Carlos”, orgulha-se João Só. Vinte anos depois, Roberto Carlos continua Rei, Menina da ladeira foi regravada no último disco disco de Neguinho da Beija-Flor, mas passou despercebida. João Só é lembrado em programas de flash back.
O sucesso passou, os fãs sumiram, e as gravadoras não o disputam mais. João Só resiste. Deixou o Rio, voltou a morar na casa dos pais, em Salvador, e continua criando. Sua última composição que está num disco independente, é Qual é a música?. “Qual é a música que faz você não me esquecer?”, pergunta o autor.Menina da ladeira é claro. Um sucesso inesquecível. Houve uma época que ele tentou se livrar desta homenagem que fez em 1968 para as meninas de Salvador. Depois do estouro do compacto simples, em 1971, a Odeon produziu um LP e dois compactos duplos de João. Em todos incluiu Menina da ladeira. Haja sucesso! “Ela ofuscava todas as outras faixas. Quando ia nas rádios, ninguém queria saber do resto do disco.” João ficava calado, aproveitava para fazer shows e programas de tevê. Até que cansou. “Se eu tivesse continuado naquele ritmo de toada, estava emplacando até hoje.”
João Só radicalizou. Saiu da Odeon e começou a fazer samba-canção e bolero. Não deu certo. Em 1978 trocou o Rio por São Paulo, onde ficou até 1984. Voltou para Salvador. Os 12 meses ininterruptos de sucesso não garantiram ao compositor um futuro tranqüilo. Até o segundo semestre de 1972, quando a música já tinha caído para o oitavo lugar, João não recebeu um centavo de direito autoral. “O autor tinha que se filiar a uma entidade que arrecadaria os direitos, mas eu não sabia”, diz. “Perdi muito dinheiro por não me cercar das pessoas certas.”
Não há nenhum rancor nisso. João Só não lamenta o fim do sucesso e muito menos o fato de ter que cantar em casas noturnas de Salvador, recebendo Cr$ 500 decouvert artístico por pessoa. “O dinheiro não é tudo na vida”. João continua com aquele mesmo jeito tímido do final dos anos 60 quando trabalhava na TV Aratu e o produtor David Raw perguntou qual era o seu nome. “É João, só.”
Jornal A TRIBUNA
Vitória, Espírito Santo, data desconhecida