7 fatos sobre o curso de Letras: “Eu tenho o péssimo (e útil) hábito de ficar fazendo listas sobre tudo: o que gosto, o que não gosto, músicas, livros e filmes favoritos, coisas que me marcaram… E encontrei no meu caderninho-amigo uma lista com 7 fatos sobre quem cursa ou é formado em Letras – assim como eu, Medeia, linguísta orgulhosa, e a minha estimada amiga Calipso. E são eles:



1- O curso serve para aprender uma língua estrangeira: Não, não e não. Se você acha que cursar Letras é bom para aprender um novo idioma, está absolutamente enganado. Ao menos não quem acha que vai aprender tudo do zero. O curso procura aprofundar os estudos na área da linguagem de um modo geral, então espera-se que o estudante já tenha algum conhecimento na área – embora isso não signifique que esse hipotético aluno não possa se dar bem nas matérias de língua estrangeira. No meu caso o curso era voltado para a licenciatura, por isso o foco estava na maneira em que poderíamos aplicar aqueles conhecimentos em sala de aula. Para evitar frustrações, faça um curso de idiomas antes ou paralelamente ao curso de Letras.


2- No curso você só vai estudar Gramática Normativa: Se você também espera que o curso vá suprir qualquer tipo de deficiência curricular do ensino básico, sinto muito em decepcioná-lo. Assim como no tópico anterior, o que se tem no curso de Letras é um aprofundamento daquilo que, supostamente, aprendeu-se nos ensinos fundamental e médio. Claro que você aprende, tira dúvidas, mas não espere que no ensino superior as coisas sejam mais “mastigadas”. Vai depender muito da dedicação do aluno em estudar por conta própria. E a gramática pode ser abordada de várias maneiras diferentes no ensino superior, muitas vezes bem menos intimidante do que na escola.


3- “Ah, mas ao menos vou ter tempo para ler”: É a primeira ilusão que cai por terra quando se entra no curso de Letras. São tantos textos a serem lidos e matérias a serem estudadas, que dificilmente vai sobrar tempo livre para leituras paralelas. E até mesmo para as leituras obrigatórias. Ou você abre mão de algumas horas de sono (ou deixa de comer, vai saber…), ou aproveita qualquer minuto livre em filas de ônibus e banco, sala de espera do dentista etc – e põe a leitura em dia. O importante é não deixar de ler e não se deixar intimidar pela quantidade massiva de material literário. Depois de um tempo fica mais fácil administrar isso tudo, você consegue uma certa autonomia em decidir qual leitura merece mais prioridade.


4- Ninguém sabe o que uma pessoa formada em Letras faz: Infelizmente, é verdade. Já perdi as contas de quantas vezes fui alvo daquele olhar vazio e perdido quando digo que sou formada em Letras, pois a pessoa simplesmente não sabe do que se trata. Daí, para simplificar, digo que é um curso que forma professores de línguas – o que não é exatamente isso, mas ao menos não faço uma explanação complexa sobre os estudos da linguagem e a sua importância sócio-cultural-cognitiva.


5- Não existe dia do linguísta: Juro que já procurei e fucei nas internerds, mas não achei nada. O máximo que encontrei foi o “Grammar Day”, comemorando nos EUA no dia 3 de março. E nem existe um equivalente no Brasil (se alguém souber, divida conosco!). Existe dia do biólogo, do matemático, do historiador, mas do linguísta… nada. Até porque, aqui no Brasil, quem se forma em Letras raramente é chamado de linguísta, mas apenas de “professor”. Não tenho problema nenhum em ser chamada de professora, mesmo não exercendo a profissão (aliás, fico até emocionada quando me chamam assim), mas o caso é que não existe muita apreciação na área. O meu único consolo, por enquanto, é saber que existe dia do Tradutor – então vou poder comemorar alguma coisa relacionada diretamente à minha área de atuação.


6- As matérias não são isoladas, mas acabam integrando-se de uma forma ou de outra: Ah, você entrou no curso porque gosta de literatura, mas detesta gramática? Amigo, vou te contar uma coisa: vai ser difícil escapar da bendita gramática nas aulas de literatura. Assim como também não vai fugir de Linguística quando estudar Teoria Literária. Ou nas aulas de Língua Inglesa. Isso quando tudo não vem misturado nas aulas de Estilística ou Linguística Textual, caso as matérias façam parte do seu currículo. Não existe uma caixinha com compartimentos onde se possa guardar os conhecimentos separadamente. Tudo está linkado.


7- A incapacidade de ler algo despretensiosamente: Teu namorado te escreveu um cartão lindo para o Dia dos Namorados. Ele pode não ter escorregado na gramática, mas você vai analisar cada palavra, cada vírgula, em busca de algum sentido maior (Bem-me-quer, Mal-me-quer... será?). Vai analisar o estilo do texto, a escolha de palavras e o uso de estruturas sintáticas. Ler um livro bobo, para se distrair na viagem à praia, pode acabar se tornando o tema de um possível artigo acadêmico porque você começa a pescar referências e a ter ideias sobre como aquele texto foi estruturado, ou o discurso por trás daquele parágrafo em específico… Em suma: linguísta não consegue ler nada sem analisar e criticar. E, para nós, isso é a alegria suprema porque estamos constantemente cercados por material de estudo, sempre instigando a nossa criatividade e raciocínio crítico.

Resumindo: Letras é o tipo de curso que só quem realmente ama compreende a sua beleza.