Provocou grande polêmica a revelação de que uma obra incluída pelo Ministério da Educação em seu programa de livros didáticos para jovens e adultos autoriza seus leitores a utilizar construções como “nós pega o peixe”.

A autora do livro em questão, Heloisa Ramos, e seus defensores, inclusive o próprio MEC, argumentam que a obra apenas apresenta a possibilidade de variantes populares da língua também serem eficientes na comunicação. De fato, a frase “nós pega o peixe” é plenamente compreensível.

Mesmo assim, o barulho que se fez tem sua razão. Afinal, espera-se de um livro didático que instrua o estudante sobre os melhores usos da língua. Que se reconheçam a existência e a eficiência de registros populares é uma coisa. Outra, diferente, é eliminar, para quem ainda está aprendendo, a noção de certo e errado. Não importa que muitos acadêmicos não reconheçam esses conceitos como válidos em se tratando de registros linguísticos. Para estudantes, certo e errado servem de referência.

Gostaria, porém, de ver se levantar o mesmo alarido crítico pelo fato de a chamada “norma culta” – a variante linguística que emprega as regras gramaticais vigentes – ser maltratada diariamente até mesmo por muitos daqueles que criticaram o MEC e o tal livro.

Um exemplo muito comum de maltrato é o uso de “onde” como pronome relativo mesmo quando na oração não há indicação de um lugar físico. Você já deve ter ouvido ou lido algo assim: “Vivemos numa época muito difícil, onde a violência gratuita impera”. Nesse caso, o correto seria usar “em que” ou “na qual”, já que se fala de um tempo, não de um lugar.

Ora, mas vivemos mesmo numa época muito difícil, na qual o ensino do português tem sido cada vez mais burocrático, o incentivo à leitura de livros é mínimo e a rapidez da internet dá a impressão de que a gramática e a ortografia são conhecimentos dispensáveis Não se trata de defender apenas o uso de um português castiço, como se todos devêssemos escrever como Machado de Assis. A língua é e deve mesmo ser algo vivo, em constante transformação. Mas a evolução não pode se dar pela corrupção.

Fonte: http://www.destakjornal.com.br