Cenas da Vida.
Um Café com Arte.

 Rogério Dezzotti

              Encontrava-me à mesa próxima à grande vidraça, pela qual, podia-se ver boa parte da rua, alguns comércios, além de grandes árvores nas calçadas. Na tentativa de esquecer tantos fatos absurdos e tantas outras coisas, que lá fora aconteciam. Como, crianças recém-nascidas abandonadas nas ruas-mães, assaltos nos coletivos, meninos cheirando droga pelos cantos da cidade e muito mais… Comigo, apenas três cadeiras vazias por companhia. Na última vez, M.J. estava aqui.
              Os pingos da chuva corriam pelos vidros até as pequenas flores na parte inferior da janela. Esperava a chuva acalmar-se, apreciando uma boa xícara de café, olhando o tímido e silencioso movimento em frente do Café. Apenas um ir e vir de alguns guarda-chuvas desordenados. Nenhuma face conhecida a passar pelas calçadas da Campos Sales.
              Ora tomava um pouco do café, ora me esquecia com o cigarro em frente do meu olhar, deitando-o, depois num cinzeiro. Por algum motivo, sufocava algumas lágrimas, que pareceriam vir à tona a qualquer momento. Não queria chorar. Olhei a minha volta e fitei meus olhos na xícara. O aroma forte que subia, entrava em meu ser e, pouco a pouco, deixei-me perder numa reflexão. Quando dei por mim, estava longe, muito longe. Lá estava eu, sentado nos degraus da escada, junto à porta da cozinha, na fazenda onde nascera. Por um momento, um nó se fez em minha garganta. À sombra da frondosa paineira em flor, mamãe lavava roupas, ouvi sua voz triste, cantar um refrão de que sempre me lembrarei. – “No céu, no céu, com minha mãe estarei…” – Parecia alegre, sua voz doce como a sabiá laranjeira, mas sei que apesar de tantas coisas… Mamãe já está no céu.
              Certa vez, ao voltar para casa, lavando roupa alguém se encontrava e, num ato sem pensar, gritei forte:
      • Mãe!?
              Não, não era mamãe; era minha irmã  que trajava o vestido que a ela pertencera. Chorou minha irmã; chorei também. Como pôde, depois de tanto tempo que falecera, uma simples peça de roupa velha ser o bastante para mamãe fazer-se presente. Ainda que somente naquele breve momento. “Vem me encontrar mãe! Vem pelo amor de… Preciso da Senhora”.
              Esse grito histérico, porém silencioso que me rasga a alma neste instante e junto com este pensamento, as lágrimas que tentei sufocar a pouco romperam, escaparam com a fumaça do cigarro que subiu no ambiente em semicírculos entre outras formas indefinidas. Neste momento ainda, recordo da vela que, num gesto simples, acendia quase todos os dias para mim. Quantas vezes eu a escutara no cômodo escuro a orar por mim baixinho, para que ninguém acordasse naquelas horas em que todos os outros dormiam. E ela ali de joelhos a pedir. Mamãe como dói, como essa lembrança dilacera, aqui dentro de meu peito agora. Quanto me amou! Resta-me pedir perdão. Se até mesmo neste momento faço-a sofrer.
              Tentei disfarçar, olhando para a árvore que já não pingava mais tão intensamente. Percebi-me na imagem fria do espelho da parede, que estava atraindo olhares curiosos. No entanto, ninguém sabia o que estava acontecendo comigo. Sentia-me como resto intragável, azedo que mais um dia vomitara. Na realidade, estava percebendo, raciocinando, questionando o meu viver e o dos outros. O que é o viver? Preciso de uma resposta, mas, não agora.
              Somente consigo pensar, que por companhia, entre uma saída e outra, tenho a solidão e meus pensamentos que levo. Até aonde ir? Se esta vida fere. É… No cansaço do meu andar, muitas vezes, o olhar que lancei na vida se perdeu em procurar nos vãos dos caminhos desta estrada uma esperança.
              Fica cada vez mais, estampado pelo suor, neste rosto, o de-
sespero dos pedidos feitos nas preces do dia a dia. E agora que o cansaço começa a chegar, são sinais de que a vitalidade, os risos ingênuos de outros tempos estão por findar?
               Mas, por fim, as lágrimas que antes tentei disfarçar são as mesmas que novamente começaram a correr em minha face e foram se encontrar na xícara sobre a mesa e desenharam círculos no café.
              Olhei para fora mais uma vez… Entretanto, enquanto se está vivo, é preciso aprender a recomeçar e continuar vencendo os males dos dias. Amanhã, quando sair de novo, levarei comigo o amor, porque a cada dia quero reaprender um novo significado para a vida. Mesmo que, seguindo por entre o peso dos dias e dos pensamentos, mesmo assim, quero saber sorrir para os sonhos.
              Era assim que M.J. sempre falara numa destas cadeiras que hoje se encontram vazias aqui nesta mesa. Ela passava horas a me dizer – Menino-homem um dia todos nós crescemos e neste crescer muitas coisas vão ficando pelos caminhos. O tempo se encarrega de levar tudo e trazer também. É necessário aprender com tudo isto. E entender a arte de como a vida é simples. É como ela sempre dizia:
              – A gente nunca deve deixar de sonhar.
              Sim, hoje entendo a simplicidade da vida por um lado e por outro, vejo o tanto que a complico em muitos momentos desse meu viver. Contudo, o tempo não me propiciou hoje, nestas cadeiras, estar mamãe, M.J. e a felicidade. Mas, ainda posso ter a esperança de encontrar a felicidade…É.
              Todavia, lá fora a garoa tímida caia, como o movimento pelas calçadas, que continuava sem muita ordem. Rostos sem risos. Estava ficando tarde e era preciso que eu partisse, que me juntasse aos tantos outros lá fora e me fosse.

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Rogério Dezzotti.